terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Linhagem e Legado: A Saga dos Lapolla-Lapolli de Marsico Nuovo à Era Ferroviária de Santa Catarina

Linhagem e Legado: A Saga dos Lapolla-Lapolli de Marsico Nuovo à Era Ferroviária de Santa Catarina


Introdução: Um Estudo de Micro-História e Integração Sociocultural

A história da imigração italiana no Brasil é frequentemente narrada através de uma lente homogeneizadora, focada nas grandes massas de camponeses vênetos e lombardos que substituíram a mão de obra escrava nas fazendas de café do Sudeste ou que desbravaram as florestas virgens das colônias do Sul. No entanto, a verdadeira riqueza desse fenômeno demográfico reside nas trajetórias singulares, naquelas famílias que, fugindo do padrão estatístico, construíram narrativas de adaptação e ascensão social que desafiam os modelos historiográficos convencionais. A genealogia da família Lapolla — posteriormente aclimatada como Lapolli — em Santa Catarina representa um desses casos paradigmáticos de excepcionalidade e integração.

Este relatório dedica-se a reconstruir, com exaustividade documental e rigor analítico, a trajetória de três gerações centrais desta linhagem: o patriarca imigrante Raffaele Lapolla (1833–1901), seu filho brasileiro Antônio Lapolli (1869–1925) e seu neto, o funcionário técnico e líder cívico Alcebíades Lapolli (1889–1951). A análise transcende a simples compilação de datas de nascimento e óbito, propondo-se a investigar as motivações profundas do deslocamento transatlântico, as estratégias de inserção na sociedade luso-brasileira preexistente e o papel determinante das grandes transformações infraestruturais — notadamente a construção da Estrada de Ferro Donna Thereza Christina — no destino familiar.

Ao contrário da narrativa predominante em Santa Catarina, que situa a imigração italiana majoritariamente a partir de 1875 e oriunda do norte da Península Itálica, a saga dos Lapolla inicia-se com um protagonista do Mezzogiorno (Sul da Itália), especificamente da Basilicata. Esta origem geográfica distinta impôs dinâmicas de assimilação únicas. Enquanto os trentinos do Vale do Itajaí formavam enclaves culturais isolados, Raffaele Lapolla e seus descendentes optaram pela fusão: casamentos exogâmicos com mulheres de antigas famílias açorianas, migração precoce para centros urbanos em formação e inserção nas carreiras burocráticas e técnicas do Estado.

Através do cruzamento de registros civis, documentos eclesiásticos, diários oficiais e bibliografia regional, este estudo desenha um arco histórico que vai das montanhas áridas de Marsico Nuovo, na província de Potenza, aos trilhos de aço que cortavam o vale do Rio Tubarão. É uma história sobre a metamorfose da identidade: de súditos do Reino das Duas Sicílias a cidadãos ativos da República Brasileira; de agricultores a telegrafistas, juízes e fundadores de clubes sociais. A pesquisa revela como a família Lapolli não apenas testemunhou, mas participou ativamente da modernização do sul catarinense, deixando um legado que perdura na toponímia urbana e na memória coletiva regional.


Parte I: As Raízes Lucanas e o Contexto de Expulsão

O Cenário Geopolítico da Basilicata Oitocentista

Para compreender a gênese da decisão migratória de Raffaele Lapolla, é imperativo mergulhar no contexto da sua terra natal. Raffaele nasceu em 13 de fevereiro de 1833, na comuna de Marsico Nuovo, situada na província de Potenza, região da Basilicata.1 Naquele momento, a "Itália" como entidade política unificada era ainda um sonho de revolucionários e intelectuais. Marsico Nuovo integrava o Reino das Duas Sicílias, governado pela dinastia Bourbon a partir de Nápoles.

A Basilicata, historicamente conhecida como Lucânia, era uma das regiões mais isoladas e economicamente estagnadas do reino. Caracterizada por um relevo montanhoso e acidentado, dominado pela cordilheira dos Apeninos Lucanos, a região sofria com uma infraestrutura de transportes precária e uma agricultura de subsistência dificultada pela erosão do solo e pelo regime latifundiário arcaico. A terra estava concentrada nas mãos de uma nobreza absenteísta e da Igreja, deixando à vasta maioria da população a condição de braccianti (trabalhadores sem terra) ou pequenos arrendatários sujeitos a contratos escorchantes.

Marsico Nuovo, especificamente, é uma localidade de fundação antiga, estrategicamente posicionada sobre colinas que dominam o vale do rio Agri. Apesar de sua beleza cênica e importância histórica como sede episcopal, a vida na comuna durante a primeira metade do século XIX era marcada pela dureza. O ano de nascimento de Raffaele, 1833, insere-se num período de fermentação política e instabilidade social. O recrudescimento do absolutismo Bourbon após as revoluções fracassadas de 1820 e 1848 criou um ambiente de repressão policial e estagnação administrativa.

A Família Nuclear de Michele Arcangelo Lapolla

Os registros genealógicos identificam Raffaele como filho de Michele Arcangelo Lapolla e Anna Maria Pasquariello.1 Michele, nascido por volta de 1800, e Anna Maria, nascida por volta de 1805, representam a geração que viveu a transição das guerras napoleônicas para a Restauração Bourbon. O nome "Michele Arcangelo" evoca a profunda religiosidade do sul da Itália, onde a devoção aos santos guerreiros e protetores era parte intrínseca do cotidiano camponês.

A família Lapolla em Marsico Nuovo era numerosa, seguindo o padrão demográfico da época, onde muitos filhos eram necessários para garantir a força de trabalho no campo e a segurança na velhice dos pais. Os documentos apontam a existência de pelo menos oito irmãos de Raffaele: Angela, Angiola Carmela, Luigia, Felicia, Felice, entre outros.1 A repetição de nomes ou variações (Angiola/Angela) pode indicar tanto a alta mortalidade infantil — comum na época, levando ao reaproveitamento de nomes de filhos falecidos — quanto a complexidade dos registros paroquiais.

A etimologia do sobrenome "Lapolla" sugere uma ligação telúrica. Derivado possivelmente de polla (nascente de água, veio d'água) ou associado à localidade de Polla na vizinha Salerno 1, o nome carrega em si a identidade da paisagem. A presença do sobrenome na região é antiga, indicando que a família não era recém-chegada, mas profundamente enraizada no tecido social da Lucânia. No entanto, raízes profundas não garantiam prosperidade. O sistema de herança, que frequentemente fragmentava as já exíguas propriedades camponesas, ou a primogenitura que excluía os filhos mais novos, gerava um excedente populacional masculino sem perspectivas claras de futuro.

Os Fatores de Expulsão (Push Factors)

Por que Raffaele, aos trinta e poucos anos, decidiria abandonar tudo? A cronologia oferece pistas valiosas. Raffaele emigrou e casou-se no Brasil em 1868. Este timing é crucial. A década de 1860 foi a década da Unificação Italiana (Risorgimento). Em 1860, a Expedição dos Mil de Garibaldi desembarcou na Sicília e subiu a península, colapsando o Reino das Duas Sicílias e anexando-o ao novo Reino da Itália, proclamado em 1861 sob a Casa de Saboia.1

Para o sul da Itália, a unificação não trouxe a prosperidade imediata prometida. Pelo contrário, trouxe o aumento da carga tributária, a imposição do serviço militar obrigatório (que retirava braços jovens da lavoura por anos) e a ruptura de antigos sistemas econômicos protecionistas. O descontentamento gerou o fenômeno do brigantaggio (banditismo social), uma guerra civil não declarada que assolou a Basilicata e regiões vizinhas na década de 1860. É muito provável que Raffaele Lapolla tenha deixado a Itália justamente para escapar desse cenário de violência, recrutamento forçado e desesperança econômica. Ele não era um aventureiro em busca de fortuna fácil, mas um refugiado econômico de uma modernização dolorosa.


Parte II: A Travessia e o Enraizamento em Santa Catarina (1860-1880)

A Chegada ao Brasil: Uma Imigração "Espontânea"?

Diferentemente das grandes levas de imigrantes subvencionados pelo governo imperial brasileiro a partir de 1875, que eram dirigidos para núcleos coloniais pré-demarcados, a chegada de Raffaele Lapolla em meados da década de 1860 sugere um caráter mais espontâneo ou ligado a redes migratórias menores e mais antigas. Ele chegou a Santa Catarina num momento em que a província ainda tentava consolidar sua colonização europeia.

O destino inicial de Raffaele não foi uma colônia italiana — elas praticamente não existiam em SC nessa época, com exceção de tímidas experiências. Ele se dirigiu para a região da Grande Florianópolis (então Desterro), especificamente para as freguesias de Santo Amaro da Imperatriz e Palhoça. Santo Amaro, famosa por suas águas termais que receberam a visita do Imperador D. Pedro II e da Imperatriz Teresa Cristina em 1845 (evento que deu nome à cidade), era uma região de colonização açoriana consolidada, mas que buscava diversificação agrícola e serviços.

O Casamento Estratégico: A Fusão Ítalo-Luso-Brasileira

O ato fundacional da família Lapolla no Brasil foi o casamento de Raffaele com Felicidade Maria da Conceição, celebrado em 21 de março de 1868, em Santo Amaro da Imperatriz.1 Este evento é de suma importância sociológica. Felicidade não era italiana. Seu sobrenome, "da Conceição", e sua inserção na paróquia de Santo Amaro indicam que ela pertencia à população luso-brasileira local, descendente dos colonos açorianos que povoaram o litoral catarinense no século XVIII.

Ao casar-se com uma "brasileira" (no sentido de estabelecida há gerações), Raffaele rompeu a barreira étnica logo na primeira geração. Enquanto imigrantes alemães no Vale do Itajaí e, posteriormente, italianos no Sul do estado tendiam a praticar a endogamia (casamento dentro do grupo étnico) por várias gerações para preservar a língua e a religião, Raffaele optou pela integração. Isso teve consequências profundas para a prole:

  1. Língua: O português tornou-se a língua materna dos filhos, facilitando a escolarização e o acesso a cargos públicos.

  2. Redes Sociais: A família passou a ter acesso às redes de solidariedade e compadrio da população local, não ficando restrita aos guetos de imigrantes.

  3. Cultura: Os descendentes cresceram numa síntese cultural, herdando a ética de trabalho e talvez a culinária do pai italiano, mas a inserção social e os costumes da mãe brasileira.

A Proliferação da Família na Grande Florianópolis

O casal estabeleceu-se na região entre Santo Amaro e Palhoça, uma zona de transição entre o litoral e a serra. A fertilidade do casal foi notável, com registros indicando o nascimento de pelo menos 12 filhos entre 1869 e 1886.1 A lista destes filhos permite traçar a cronologia da família e seus movimentos:


Nome

Ano Nasc.

Local Provável

Observações

Antônio Lapolli

1869

Sto. Amaro/Palhoça

Primogênito, continuador da linhagem principal deste estudo.

Amaro Marcolino Lapolla

1870

Grande Fpolis

Nome "Amaro" possivelmente em homenagem ao padroeiro local.

José Lapolla

1871

Grande Fpolis

Nome comum, integração religiosa.

Maria Lapolla

1872

Grande Fpolis

Faleceu longeva em 1966.

Ignez Lapolla

1873

Grande Fpolis

-

Celestina Lapolla

1875

Grande Fpolis

-

Cecília Lapolla

1876

Grande Fpolis

-

Julieta Lapola

1879

-

Falecida na infância.

Emilia Lapoli

1880

-

Falecida em 1953.

Fernando Roberto Lapolli

1882

Tubarão 2

Marco da migração para o Sul do Estado.

Bruno Lapolla

1886

-

-

Erotides Lapolla

1886

-

Provável gêmeo(a) de Bruno.

A análise onomástica revela a manutenção de nomes tradicionais italianos (Raffaele, Michele - embora não listado aqui, comum nos netos) mesclados com nomes de devoção ibérica (Felicidade, Conceição, Amaro). Nota-se também a vacilação na grafia do sobrenome nos registros: Lapolla, Lapola, Lapoli, Lapolli. Essa instabilidade é típica da época, onde escrivães registravam nomes "de ouvido". Com o tempo, o ramo catarinense consolidou a forma Lapolli, uma aportuguesação fonética que soava mais natural aos ouvidos locais ou uma tentativa de refinamento gráfico.


Parte III: A Marcha para o Sul e o Ciclo do Carvão

A Atração Econômica de Tubarão

O dado mais revelador da tabela acima é o local de nascimento de Fernando Roberto Lapolli em 1882: Tubarão.2 Isso sinaliza que, em algum momento entre o nascimento de Cecília (1876) e Fernando (1882), a família — ou parte significativa dela — deslocou-se da Grande Florianópolis para o Sul do Estado.

O que motivou esse deslocamento? A resposta reside na geologia e na economia política do Império. No final da década de 1870, a região do vale do Rio Tubarão vivia uma euforia econômica. A descoberta de jazidas de carvão mineral de qualidade comercializável atraiu o interesse do governo imperial e de investidores estrangeiros. O carvão era o combustível da Revolução Industrial, essencial para os navios a vapor e para as locomotivas.

Visconde de Barbacena e outros empreendedores iniciaram projetos ambiciosos na região. O ápice desse movimento foi a concessão para a construção da Estrada de Ferro Donna Thereza Christina (EFDTC), destinada a escoar o carvão das minas de Lauro Müller (então Minas) até o porto de Laguna/Imbituba, passando por Tubarão. A construção efetiva da ferrovia começou no início da década de 1880, com a inauguração oficial em 1884.3

Para um imigrante como Raffaele e seus filhos jovens adultos (Antônio já tinha cerca de 12-13 anos nessa época), Tubarão representava o que o Oeste Americano representava para os pioneiros dos EUA: uma fronteira de oportunidades. A construção da ferrovia demandava tudo: braços para assentar trilhos, fornecimento de alimentos, madeira para dormentes, serviços de hospedagem e comércio. É altamente provável que a família Lapolli tenha se mudado para capitalizar sobre esse boom econômico, abandonando a agricultura de subsistência de Santo Amaro por oportunidades mais dinâmicas no comércio ou serviços ligados à ferrovia emergente.

O Retorno e Falecimento do Patriarca

Apesar da aventura no Sul, os laços com a região de Florianópolis não foram totalmente cortados. O registro de óbito de Raffaele Lapolla indica que ele faleceu em Palhoça, em 20 de abril de 1901, aos 68 anos.1 Esse retorno ao litoral próximo à capital pode ter sido motivado pela velhice, pelo desejo da esposa de estar perto de parentes, ou talvez Raffaele nunca tenha se mudado definitivamente, sendo seus filhos (como Antônio) os verdadeiros agentes da fixação em Tubarão. No entanto, a presença de nascimentos em Tubarão sugere que a família nuclear residiu lá por um tempo.

Raffaele faleceu no alvorecer do século XX, tendo cumprido a missão clássica do imigrante: transplantar a linhagem para um solo novo e fértil. Ele deixou uma viúva, Felicidade, e uma prole numerosa que já começava a se ramificar por todo o estado.


Parte IV: Antônio Lapolli (1869–1925) — O Elo de Transição

A Consolidação na Urbe Tubaronense

Antônio Lapolli, o primogênito nascido no Brasil (1869), é a figura chave na transição da família de uma identidade rural/imigrante para uma identidade urbana/ténica. Tendo chegado a Tubarão na adolescência ou início da vida adulta, ele testemunhou a transformação da vila em cidade.

Em Tubarão, Antônio casou-se com Alzira da Silva Coelho.4 Alzira, nascida por volta de 1873 (tinha 16 anos quando seu filho Alcebíades nasceu em 1889), trazia em seu sobrenome a marca de famílias luso-brasileiras tradicionais. O casamento precoce de Alzira e a formação de uma nova família nuclear em Tubarão solidificaram a presença dos Lapolli na região.

A cidade de Tubarão na virada do século XIX para o XX era um ambiente vibrante, mas hostil. Periodicamente assolada por enchentes devastadoras do Rio Tubarão (como a grande enchente de 1887), a cidade exigia resiliência. A economia girava inteiramente em torno do complexo ferro-carvão. Embora os snippets não detalhem a profissão exata de Antônio (pai), a trajetória de seus filhos sugere que ele conseguiu prover recursos suficientes para garantir educação e acesso a ofícios qualificados. Ele não era um simples operário braçal; a ascensão de seus filhos ao oficialato de justiça e a cargos técnicos na ferrovia implica um certo capital cultural e social acumulado pelo pai.

Antônio faleceu em 1925, aos 56 anos 1, uma idade relativamente precoce, mas suficiente para ver seus filhos estabelecidos. Sua morte marca o fim da geração de transição.


Parte V: Alcebíades Lapolli (1889–1951) — A Elite Técnica Ferroviária

Nascimento e Formação

Alcebíades Lapolli nasceu em 23 de junho de 1889, em Tubarão 4, poucos meses antes da queda do Império e da Proclamação da República. Ele pertence à primeira geração de "brasileiros republicanos" da família. Filho de Antônio e Alzira, Alcebíades cresceu ouvindo o apito das locomotivas Baldwin e o telegrafar incessante das estações.

A Carreira na Estrada de Ferro Donna Thereza Christina (EFDTC)

A biografia profissional de Alcebíades é a espinha dorsal da ascensão social da família. Ele tornou-se telegrafista e agente de estação ferroviária.4 Para o leitor moderno, essas funções podem parecer burocráticas, mas no contexto de 1910-1940, elas representavam a elite técnica da classe trabalhadora.

  1. O Telegrafista: Era o operador da tecnologia de comunicação mais avançada da época. O telegrafista precisava ser alfabetizado, ágil e responsável. Ele controlava o tráfego dos trens, evitando colisões em linhas de via única, e era o canal de notícias do mundo para a cidade.

  2. O Agente de Estação: Era a autoridade máxima da ferrovia na localidade. Ele administrava a venda de bilhetes, o despacho de cargas (carvão, madeira, produtos agrícolas), a contabilidade da estação e a gestão dos funcionários subalternos.

A atuação de Alcebíades em Laguna 4 é significativa. Laguna era o porto de exportação do carvão e o ponto final da linha férrea. Ser agente em Laguna ou Tubarão significava estar no centro nevrálgico da economia regional. A EFDTC, inicialmente de capital inglês e depois encampada pelo governo federal, oferecia estabilidade, bons salários e aposentadoria, privilégios raros no Brasil da época. Isso permitiu a Alcebíades sustentar uma família imensa e investir na educação dos filhos.

A Fundação do Clube Mampituba e a Vida Associativa

Um dos indicadores mais fortes do status social de Alcebíades é sua participação na fundação da Sociedade Recreativa Mampituba, em Criciúma. A ata de fundação, datada de 18 de maio de 1924, lista Alcebíades Lapolli como um dos 52 sócios fundadores.5

  • Contexto: O Mampituba não era um clube popular; era um grêmio destinado à recreação das famílias abastadas e da classe média emergente da região carbonífera.

  • Mobilidade Geográfica: Sua presença na fundação em Criciúma sugere que, em 1924, Alcebíades estava lotado numa estação ferroviária daquela cidade ou tinha interesses comerciais lá. A ferrovia conectava Tubarão a Criciúma (bacia carbonífera), e a mobilidade dos agentes era comum.

  • Capital Social: Ser fundador de um clube desse porte conferia prestígio e inseria a família nas redes de poder local, facilitando casamentos e negócios para a próxima geração.

Vida Familiar e Descendência

Alcebíades casou-se com Maria de Oliveira (1895–1941), mantendo o padrão de casamentos com brasileiras de sobrenomes ibéricos. A união gerou uma descendência extraordinária de 16 filhos 4, uma verdadeira tribo urbana que se espalhou por diversas profissões.

A lista dos filhos reflete a integração e a homenagem aos antepassados:

  • Adílio, Adenid, Alba, Aldo, Ayrton, Almiro: A preferência pela letra "A" é curiosa e denota um certo gosto estético na nomeação.

  • Antônio Lapolli Sobrinho (n. 1916): Nomeado em homenagem ao avô Antônio. Seguiu a carreira ferroviária ("ferroviário" citado em 6) e tornou-se uma figura pública relevante em Tubarão, a ponto de nomear uma rua no bairro de Oficinas.7

  • Alzira Lapolli (n. 1918): Homenagem à avó paterna.

  • Aderbal Benedito Lapolli (n. 1935): O caçula, nascido quando o pai já tinha 45 anos.

A morte prematura de Maria de Oliveira em 1941, aos 46 anos, foi um golpe duro. Alcebíades viveu mais uma década, falecendo em 21 de junho de 1951, em Tubarão, aos 61 anos, apenas dois dias antes de seu aniversário.


Parte VI: O Bairro de Oficinas e a Identidade Coletiva

A história dos Lapolli em Tubarão está umbilicalmente ligada ao bairro de Oficinas. Este bairro surgiu ao redor das oficinas de locomotivas e vagões da EFDTC. Era uma "company town" dentro da cidade. Ali viviam os ferroviários, formava-se uma cultura operária de solidariedade, greves, bandas de música e times de futebol (o Ferroviário de Tubarão).

A existência da Rua Antônio Lapolli Sobrinho no coração de Oficinas 7 é a materialização da memória familiar no espaço urbano. A família não apenas morou lá; ela ajudou a construir a identidade do bairro. Documentos citam a participação de membros da família em diretorias de associações e na política local 6, sempre orbitando esse núcleo ferroviário.

Além disso, registros de terras e inventários mostram que a família acumulou patrimônio. Disputas de terras confinantes com a poderosa Sucessão Henrique Lage (o "dono" das minas e da navegação) em 1947 8 indicam que os Lapolli possuíam imóveis de valor estratégico, não sendo meros inquilinos.


Parte VII: Ramificações e Legado Político (Antônio Lapolli Filho)

Enquanto Alcebíades dominava a esfera técnica e social, seu irmão (ou parente muito próximo da mesma geração), Antônio Lapolli Filho, ocupava espaços de poder político e jurídico.

  • Juiz de Paz e Escrivão: Atuou como autoridade judiciária em Tubarão na década de 1940, assinando editais e citações.9

  • Política: Membro ativo do PSD (Partido Social Democrático), partido que dominou a política catarinense e nacional no período pós-Vargas. Sua presença em jantares do Rotary Club e recepções a prefeitos 10 demonstra que a família Lapolli havia completado a escalada social: de imigrantes camponeses a membros da elite dirigente local em apenas duas gerações.

A presença contemporânea do sobrenome em Diários Oficiais recentes (ex: José Antônio Lapolli Rosso 11) atesta a continuidade da família em funções públicas e na vida civil do estado.


Conclusão: A Síntese de Uma Trajetória

A pesquisa genealógica e biográfica de Raffaele Lapolla, Antônio Lapolli e Alcebíades Lapolli revela muito mais do que uma árvore genealógica; revela a anatomia da formação da sociedade sul-catarinense.

  1. A Excepcionalidade da Origem: A família prova que a imigração italiana em SC não foi monoliticamente vêneta. A contribuição lucana (Basilicata) trouxe elementos culturais distintos e uma predisposição à integração urbana.

  2. A Estratégia de Assimilação: Através de casamentos com luso-brasileiras e da adoção rápida da língua e costumes nacionais, os Lapolli evitaram o isolamento das colônias rurais, permitindo uma ascensão social mais acelerada.

  3. O Vetor Ferroviário: A ferrovia Donna Thereza Christina foi o grande catalisador. Ela atraiu a família para Tubarão, forneceu emprego qualificado para as gerações seguintes e moldou a identidade social do clã como parte da "aristocracia operária" e da classe média burocrática.

  4. O Legado: De Marsico Nuovo a Tubarão, a família deixou sua marca na fundação de instituições (Mampituba), na administração da justiça e na malha urbana (nomes de ruas).

Esta saga é um testemunho da capacidade humana de reinvenção diante das adversidades históricas — da unificação italiana que expulsou Raffaele às enchentes e crises do carvão que forjaram o caráter de seus netos brasileiros.

Tabela Cronológica Sintética

Ano

Evento Chave

Protagonista

Local

Contexto Histórico

1833

Nascimento

Raffaele Lapolla

Marsico Nuovo (Itália)

Reino das Duas Sicílias; pré-Unificação.

c. 1860-65

Imigração

Raffaele Lapolla

Brasil (SC)

Fuga do pós-Risorgimento/Brigantaggio.

1868

Casamento

Raffaele & Felicidade

Santo Amaro da Imp.

Integração com família luso-brasileira.

1869

Nascimento

Antônio Lapolli

Grande Florianópolis

1ª Geração nascida no Brasil.

c. 1880

Migração Interna

Família Lapolla

Tubarão

Início da construção da Ferrovia (EFDTC).

1882

Nascimento

Fernando R. Lapolli

Tubarão

Confirmação da fixação no Sul.

1889

Nascimento

Alcebíades Lapolli

Tubarão

Ano da Proclamação da República.

1901

Óbito

Raffaele Lapolla

Palhoça

Fim da era do patriarca imigrante.

1924

Fundação Clube

Alcebíades Lapolli

Criciúma

Fundação do Mampituba; status de elite.

1925

Óbito

Antônio Lapolli

Tubarão

Transição geracional completa.

1940s

Carreira Pública

Antônio Lapolli Filho

Tubarão

Juiz de Paz, Política (PSD).

1951

Óbito

Alcebíades Lapolli

Tubarão

Legado de 16 filhos e carreira ferroviária.


Nota sobre Fontes e Metodologia: As informações aqui consolidadas baseiam-se na análise crítica de fragmentos de registros civis (FamilySearch), publicações oficiais (Diário Oficial de SC), hemeroteca digital e bibliografia sobre a história de Tubarão e da imigração italiana. A grafia dos nomes foi padronizada conforme o uso predominante nos documentos brasileiros mais recentes (Lapolli), mantendo-se a forma original (Lapolla) quando referente ao contexto italiano ou aos primeiros registros.

Referências citadas

  1. Raffaele Lapolla (1833–1901) - Ancestors Family Search, acessado em janeiro 7, 2026, https://ancestors.familysearch.org/en/9JTY-1R2/raffaele-lapolla-1833-1901

  2. Fernando Roberto Lapolli (1882–1953) - Ancestors Family Search, acessado em janeiro 7, 2026, https://ancestors.familysearch.org/pt/G4QZ-N5D/fernando-roberto-lapolli-1882-1953

  3. UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE, acessado em janeiro 7, 2026, https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/255730/TCC_DEBORA_FINAL.pdf?sequence=1&isAllowed=y

  4. Alcebíades Lapolli (1889–1951) - Ancestors Family Search, acessado em janeiro 7, 2026, https://ancestors.familysearch.org/en/KNGC-51C/alceb%C3%ADades-lapolli-1889-1951

  5. Estatuto - Sociedade Recreativa Mampituba, acessado em janeiro 7, 2026, https://www.mampituba.com.br/wp-content/uploads/2025/07/estatuto-Mampituba.pdf

  6. DIÁRIO OFICIAL DO ESTADO, acessado em janeiro 7, 2026, https://acervo.arquivopublico.sc.gov.br/uploads/r/arquivo-publico-do-estado-de-santa-catarina-apesc/a/8/e/a8ed24ddc1bdc6cec2f33f7ce71160514123704f1efa81429f7253dda74ac79f/a2c47d39-09a5-4095-b2c1-66fa1031aa4b-35477-DOE_5187_03_08_1954_08F.pdf

  7. Câmara Municipal de Tubarão _ Pauta Ordinária, acessado em janeiro 7, 2026, https://www.legislador.com.br/LegisladorWEB.ASP?WCI=ExpedienteTexto&ID=8&inExpedienteAta=2&dtReuniao=17/10/2022&tpReuniao=1

  8. diário oficial - Arquivo Público do Estado de Santa Catarina, acessado em janeiro 7, 2026, https://acervo.arquivopublico.sc.gov.br/uploads/r/arquivo-publico-do-estado-de-santa-catarina-apesc/9/0/d/90d79df3387130f73f0fef3c7afaaada4ed68cd7ade48b5a1574648d323cfff6/b8c8c5b7-08fa-484b-863c-faeb11ff2927-38112-DOE_3524_08_08_1947_08F.pdf

  9. Arquivo Público do Estado de Santa Catarina, acessado em janeiro 7, 2026, https://acervo.arquivopublico.sc.gov.br/uploads/r/arquivo-publico-do-estado-de-santa-catarina-apesc/c/a/0/ca0c9f9f2a37d99c2e6f00ded888dae32a731d6d557f9dd404ea5887191b4648/7d93bf52-5750-49f1-9366-dcb7d73e403b-39667-DOE_2315_06_08_1942_04F.pdf

  10. langoafirma-queestá satisfeito com o"progresso,do Brasil - Hemeroteca Digital Catarinense, acessado em janeiro 7, 2026, http://hemeroteca.ciasc.sc.gov.br/oestadofpolis/1964/EST196414878.pdf

  11. Diário Oficial - DOE/SC, acessado em janeiro 7, 2026, https://portal.doe.sea.sc.gov.br/repositorio/2024/20241030/Jornal/22385.pdf