sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Antes que o dia termine...


Já é tempo de erguer os olhos ao infinito 
e permitir que cresça a ternura do olhar e do tocar, 
porquanto o teatro da existência se mostra bem finito,
corramos e dancemos sem receio de nos molhar.




Wesley Marcos de Oliveira Santos



domingo, 10 de agosto de 2014

Sol da Justiça


No tic-tac do relógio velho que bate descompassado, a madrugada não se demora em passar. O sol em breve retornará. Na alma notívaga, a velha sensação de que não há nada novo de baixo do sol e de que os dedos se vão mas os anéis permanecem. A velha lua, o velho chão, a velha cicatriz e o velho rosto no espelho. Em que pese a escuridão, a madrugada traz à luz o que a alma reluta em esconder durante o dia.

Nessa sina, o caminho é só de ida e os ensaios já não nos são permitidos.  Ao que parece, neste teatro da existência, os tempos são maus e a alegria não passa da tristeza desmascarada, uma vez que o mesmo poço que dá lugar ao riso, por muitas vezes já foi preenchido com lágrimas, de modo que a tristeza repousa no berço esplêndido sob o qual já pairou o teu maior deleite. Choro e riso são sinais da vitalidade de quem aguarda o amanhecer. Pesa em teu peito saber que a justiça não prevalecerá nestes dias. Teimas. Sentes que envelhece e falas menos, persistindo em perscrutar o insondável. E nas, palavras do poeta, percebes que o teu retrovisor se embaça, mas nele ainda espelhas as memórias que te dão esperança.

A vida, contudo, não aguarda reposições e o sol está prestes a nascer. O sol da justiça virá e trará tudo novo. O velho medo dará lugar à fé; a velha dor dará lugar ao riso; a velha condenação dará lugar à absolvição; a velha morte dará lugar à vida. O velho será aniquilado pelo novo. O pródigo retornará ao lar, o peregrino retomará a caminhada que lhe foi proposta.

Por ora, ao raiar da aurora, a vida te chama e a tua vocação não teme o duro chão da existência. Revogando os decretos do destino, obedecerás a voz que diz que o teu tempo se chama hoje. Correndo, andando, tropeçando, caindo e levantando, seguirás o caminho que te foi proposto, sabendo que o sol que ilumina o teu caminho decidiu brilhar no teu interior.




Mas para vós, os que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça 

Malaquias 4:2


n'Ele em quem serei o que ainda não sou

Oppositer

terça-feira, 20 de maio de 2014

Quando me vejo de longe


A vida tem lá seus percursos e os céus deixam seus sinais, a verdade é tanta que até mesmo as aves do céu são hábeis a compreender seus insondáveis ciclos e suas mudanças. Ora, o que hoje se vê aqui é o que ontem havíamos ansiado, se não for assim, talvez tenhamos ansiado pouco. O tempo escorre e a alma já não se exprime e se comunica com  as palavras de outrora, mas quando assim o faz, vê-se que não restam palavras ou fonemas capazes de exprimir o que se passa no âmago de quem pensa, sente e respira.

Momentos há, e não são poucos, em que é preciso voltar, recolher-se e tornar ao lugar onde tudo começa e termina, num ciclo das mais distantes eternidades transitórias da alma transeunte. Clareza e limpidez sempre serviram de óbice, afinal a vida não aderiu a tão almejada obviedade na qual nada paira senão a inexistência do encanto e da beleza. Imerso numa subjetividade peculiar aos notívagos, retorna-se ao lar.

Envolto num volver sem fim, avança-se ao que passou. Tornar ao passado é um exercício que todo homem faz, ainda que de forma tímida ou escondida, porquanto é lá que encontramos os arquétipos de quem somos, num apanhado de morte, vida, sonhos, delírios, amores, amigos, cheiros, sorrisos, lágrimas e lembranças do tempo que escorreu entre os dedos de nossas mãos.

Ah, quem dera voltar! Voltar ao tempo em que tudo nos encantava e nada nos tirava o prazer de ousar e tentar ser o que jamais fomos.

Por isso escrevo. Nas letras não há limites. Não almejamos compreensão, pelo que compreender é enclausurar, e, por tal razão, meu amigo, escancare a alma e deixe com que o teu interior retorne ao lugar onde tudo era motivo para mais.

Sim, aguardei ansiosamente pelo inverno. O verão tem lá seus encantos, mas é na solitude e na madrugada fria que a vida se encarrega de resplandecer as dracmas perdidas no ímpeto da nossa negligência. No muito falar e nos discursos gélidos ou inflamados paira a confusão de espírito. Ansiei pelo inverno e descobri que não há verão primaveril sem que antes haja o repouso em berço esplêndido do inverno existencial.

Quando me vejo de longe, escrevo.


O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.
Salmos 30:5

n'Ele, em quem serei o que ainda não sou.
Oppositer


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Milhões de milhares

Milhões de milhares. Bilhões de humanos aqui e agora. Milhões à sombra do desemprego. Milhões de famintos no dia de hoje. Milhões no inferno da violência doméstica. Milhões de aidéticos. Milhões no vale da depressão. Milhares morrendo de câncer na crueza do agora. Milhões se afogando prazerosamente nas drogas e no álcool. Milhares de abortos e vidas não vividas. Milhares de suicídios. Milhares de homicídios. Milhões nas mãos de milhares e miséria nas mãos de bilhões. Tudo tão comum e nada mais nos impressiona. Os números e a matemática prostituíram nosso sentidos e nos tornamos doutores e mestres na arte da insensibilidade. Enquanto isso, fingimos que tudo isso é normal.



nEle, em quem vivo e dissolvo meu eu,
Oppositer

domingo, 1 de dezembro de 2013

Volta para casa!

Perdoem-se o disparate. Quero pessoas de alma, pois a vida é curta e paulatinamente rara. Deus me livre das desalmadas. Humanos sem humanidade. Numa selva de pedra todo fluído da alma se faz escasso. Artificialidade é o nosso lema e bordão. Quero explodir as grades. Contemplar a chuva serôdia, o cheiro de terra molhada, a lua que reluz em timidez e sol que se oculta no crepúsculo solitário. Rever meus amigos e abraçar meus inimigos. Perder-se para encontrar a si mesmo. Abrir mão de pecados, caprichos da ilusão, sórdidos desejos e vontades asquerosas a fim de que o profeta volte a profetizar, o poeta a escrever e a alma torne a cantar.


Oppositer

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Seguir-te



"Por muito tempo meu espírito aprisionado permaneceu nos grilhões das trevas e do pecado.
Até que de teu olhar veio o raio vivificador e despertei do meu calabouço em pleno fulgor.
Os grilhões se romperam, meu espírito foi liberto.
Levantei-me e passei a seguir-te de perto." 

John Wesley (1703 -1791)

sábado, 2 de março de 2013

Adeus, povo de Decápolis!


               Eis aqui Cícero, o jovem velho, eterno peregrino à procura do lar, filho de humanos ordinários e órfão dos privilégios da vida. Após uma vida vivida no conforto do seu desconforto, lamentando os males que afligem todo indivíduo debaixo do sol, Cícero caiu em si e percebeu que a hora de chegar havia partido. Fitando os olhos na velha cidade, bradou: Adeus povo de Decápolis!
                Toda e qualquer despedida não é, de modo algum, um momento agradável. As memórias vêm à tona, atropelando uma sobre a outra, de modo a remontar lugares, cenários, cheiros e sentimentos. Mas não há mais tempo para o jovem Cícero. As lembranças surgem como facas de dois gumes que cortam a dilaceram as entranhas da alma nua.  Ao contemplar os verdes pastos e colinas distantes, Cícero encontrou-se consigo mesmo; em cada rua e em cada esquina Cícero deixou um pouco de si; em cada luar e em cada noite em claro, o notívago compôs canções que ouvidos jamais ouviram; aos colegas, o coração externava a gratidão de comporem a platéia em torno ao solitário púlpito da existência; aos amores, a alma, tímida e verdadeira, relembrava os dias de paixão que se consumiram como os ramos da sarça ardente. Não foram poucos os pedaços da alma que Cícero espalhou por Decápolis, e muitos eram os filhos dos seus aborrecimentos que bailavam desnudos ao som dos bramidos dos dias mal vividos e do bem não realizado, que perambulavam sorrateiramente no sempiterno ecoar dos seus pesares.   
                Entretanto, não lhe é tarefa símplice desfazer de suas mazelas sem ao menos sentir as dores oriundas dos cismas de uma despedida. Não é mera roupa que se troca no dia que o vento gélido sopra, mas é despir-se da própria pele arrancando-a com as mãos. De muito bom grado levaria tudo e todos para a próxima parada, mas como fazê-lo? Cícero, então, relembra os contos proferidos por um velho andarilho que passara por Decápolis afirmando:

A vida é como é um barco. Apesar de projetado para navegar, o barco encontra alento e segurança atracado nos portos e nas encostas; entretanto, o barco não fora projetado para permanecer no porto, senão para zarpar e enfrentar os bravos mares e os ventos impetuosos a fim de desbravar novos horizontes. Na vida, encontram-se muitos portos seguros, a saber, a família, os amigos e os amores, tendo cada um deles a sua excelsa função, porém nenhum deles pode impedir o barco de partir. Por isso, navegue, filho meu! Enfrente as altas vagas e alcance o fim do arco-íris antes que a ferrugem e a velhice te corroam os ossos e a melíflua alegria de possuir fôlego de vida. Navegar é preciso, porquanto navegar é viver.


                O trem se aproxima trazendo consigo estranhos jamais vistos, afinal, a vida é um grande castelo de destinos que se cruzam.  O apito solitário em meio à tarde de inverno anuncia o fim de uma etapa. Despindo-se do passado, Cícero adentra o trem e parte para nunca mais. A separação se confunde com o encontro, assim como o anoitecer se funde à luz da aurora. Cícero, fitando os olhos em Decápolis, falou em alta voz: se, por ventura, nos esbarrarmos  outra vez nas esquinas da vida ou da memória, conversaremos de novo e ouviremos a velha canção que diz que a vida é repleta de despedidas.
 Adeus, povo de Decápolis! 






Oppositer